BORDERLINE: ASPECTOS QUE ENVOLVEM ESSE TRANSTORNO SOB O VIÉS ANÁLICO COMPORTAMENTAL PARTE 2


 Classes Comportamentais designadas de Eu na visão Behaviorista Radical

O “eu” inicialmente se determina como unidade funcional “eu” a partir de unidades maiores conseqüentemente aprendidas como “eu quero”; “eu estou”; “eu vejo”. Depois a criança passa se expressar com várias palavras que nunca havia falado ou ouvido, ou melhor, o indivíduo varia o comportamento, em momento posterior o “eu” surge como referência sobre controle de estímulos públicos primeiramente e depois de estímulos privados. Portanto o “eu” enquanto experiência é formado ou aprendido e se torna possível explicar porque é decorrente da identificação e descrição do que a criança vive e tem como experiência [decorrente de contingências externas], as pessoas que vivem com o indivíduo modelam seu repertório comportamental que após certo tempo de sua aprendizagem deixa de se comportar sobre controle dos pares e passa a se comportar sob seu controle, ou seja, adquire autocontrole. É nesse contexto que surge a noção de consciência que segundo a filosofia behaviorista radical, é a observação de nosso repertório comportamental que faz com que haja aprendizagem de nós mesmos. Portanto é por aprendizagem que utilizamos o conceito de “eu” (self), onde nossa comunidade verbal reforçou e selecionou o uso da palavra “eu” em contingências onde o organismo estava operando. (SOUSA; VANDENBERGHE, 2005; SOUSA, 2004, 2003; KOHLENBERG; TSAI, 1991).
 Certamente que aprendizagem do “eu” é complexa e muito difícil de controlar, pode acontecer aprendizagem de comportamentos, pela criança, que dificultarão a funcionalidade desses em ambientes posteriores. O organismo pode ter sido exposto a contingências na qual estava sob controle de eventos públicos e que não foi reforçado, ao contrário, sofria punições quando emitia comportamentos privados, ocasionando assim, déficits de experiências privadas, que podem levar a dependência do ambiente, falta de repertórios de autocontrole que ocasiona a instabilidade dos comportamentos e, portanto a transtornos comportamentais. (SOUSA; VANDENBERGHE, 2005; SOUSA, 2004, 2003; KOHLENBERG; TSAI, 1991). Por isso é funcional salientar que o “eu normal” é decorrente do processo de aprendizagem da qual ele foi exposto, primeiramente pelo controle de eventos públicos e depois privados, (SOUSA; VANDENBERGHE, 2005; SOUSA, 2004, 2003; KOHLENBERG; TSAI, 1991), podendo acrescentar que devido à história de reforçamento, o indivíduo se comportará sensível a diferentes contextos, isso explica o fato de indivíduos com diagnósticos de Transtorno de Personalidade se comportarem diferentemente, ou seja, embora apresentem a mesma topografia comportamental a funcionalidade é diferente.

 Classes de Comportamentos que são intitulados Borderline numa visão Behaviorista Radical.  

Distúrbios graves do self , assim intitulado pelos autores, , um self que produz muitas respostas ou comportamentos sob controle público, originários da decorrência de aprender com os pares que são também possuidores de repertórios inconsistentes aos estímulos do ambiente público. (KOHLENBERG; TSAI, 1991).
Os pares com padrão instável de comportamento não reforçarão a criança a exercer o controle sob os estímulos ou autocontrole, pelo contrário, reforçarão apenas comportamentos que estão sob controle de estímulos públicos, assim o “eu” que foi modelado sob essas contingências é dependente de estímulos discriminativos emitidos pelos pares, como conseqüência na presença dos pares há emissão de comportamentos que só serão reforçados se houver a emissão de estímulos discriminativos (SD) dos pais. Um exemplo seria os comportamentos de humor dos pais (estímulos públicos) como SD para a ativação de repertórios comportamentais que nessas contingências serão reforçados, lembrando que isso foi passado de experiências anteriores de contingências igualmente parecidas. (SOUSA; VANDENBERGHE, 2005; SOUSA, 2004, 2003; KOHLENBERG; TSAI, 1991).
Os comportamentos que surgem nessas contingências ou “eu” que também é chamado de self, está sob controle de estímulos públicos provenientes dos pares, e que em contingências diferentes em decorrência de estímulos discriminativos diferentes dos pares (estímulos públicos) é acionado outros repertórios que foram aprendidos e reforçados em decorrências desses estímulos diferentes (SD). (SOUSA; VANDENBERGHE, 2005; SOUSA, 2004, 2003; KOHLENBERG; TSAI, 1991).
O transtorno de personalidade borderline, possui uma característica que implica em: “eu me sinto vazio”, tal comportamento é decorrente da inexistência de estímulos discriminativos privados que controlam o “eu”. O indivíduo aprendeu que sentir, pensar, ou melhor, vivenciar o “eu” está sob controle de estímulos públicos, podendo sentir-se instável e inseguro. O sentimento descrito de “vazio” pode ser entendido como falta de estímulos externos que anteriormente se mostravam presentes onde a ausência de SD (estímulos discriminativos) externos pode levar a sensação de fragmentação do self ou despersonalização, pois há o medo de perder a identidade ao se envolver com outras pessoas por isso, tendem a se esquivar do controle que o comportamento das pessoas exerce sobre si, através do isolamento para que possa criar ambiente que exerça controle sobre si. (SOUSA; VANDENBERGHE, 2005; SOUSA, 2004, 2003; KOHLENBERG; TSAI, 1991).
 Algumas contingências  são descritas na história de vida na família de indivíduos com TPB (Transtorno de Personalidade Borderline) que no geral as famílias não dão atenção aos relatos sobre suas experiências que são muitas vezes desacreditadas ou desconsideradas desde criança, ou seja, quando falavam de suas experiências, sentimentos, pensamentos, os pares puniam esses comportamentos e exigiam que esses comportamentos fossem controlados, por isso os comportamentos que estavam sob controle privado foram punidos, conseqüentemente havendo Reforçamento Negativo de Auto Relatos que foram ficando disfuncionais, uma vez que para se esquivar das conseqüências aversivas a criança passa a ter experiências do self sob controle de estímulos externos, levando a ser controlado pelos desejos dos outros. (WASSON e LINEHAN, 1993 apud SOUSA, 2003); (LINEHAN, 1987 apud KOHLENBERG; TSAI, 1991)
Devido à ineficiência do controle privado sobre eu, o indivíduo não gosta da solidão e a teme, e a explicação para esse fenômeno se dá devido à aprendizagem de contingências de negligência por parte dos pais que devido à ineficiência de fornecer base emocional para a criança faz com que a mesma tenda em idades posteriores a busca de suporte emocional em pessoas. (SOUSA; VANDENBERGHE, 2005; SOUSA, 2004, 2003).
 Há certos padrões nas famílias de borderlines, como negligência das crianças por parte dos pais, relações interpessoais hostis, pobre e distante. A negligência leva ao adoecimento da criança e a mesma aprende a cuidar de si desde cedo. (GUNDERSON, KERR e WOODS, 1980 apud SOUSA, 2004, 2005) e destacam o papel da aprendizagem para a aquisição e da história de reforçamento para a manutenção de comportamentos intitulados como Transtorno de Personalidade Borderline(GUNDERSON ET AL, 1980; SOLLOFF ;MILLWARD, 1983; LIVESLEY, 2000; PARIS, 2000; FORNAGY; TARGET, 2000 apud SOUSA 2004,2005)
Fatores sociais também favorecem a manutenção do transtorno, como a cultura. A tecnologia vem acompanhada com o crescimento do compromisso com o individual e morte do social, há também aumento nos divórcios, crianças sendo criada por babás, falta de estabilidade nos relacionamentos íntimos, mudanças geográficas devido ao caos econômico, só reforçam uma sociedade instável, solitária, com sentimentos de vazio, ansiedade, depressão e dificuldade em confiar nas pessoas. (SOUSA, 2004, 2005).
A sociedade carrega o paradoxo, defendem a paz, mas nas ruas, os filmes, os esportes e a TV mostram agressão e violência, o capitalismo prega o individualismo e o suicídio é uma maneira freqüente de lidar com as ameaças do meio, mostrando como não há expectativa para o futuro (KREISMAN; STRAUS, 1989; ARMONY, 1998 apud SOUSA, 2004, 2005)
REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO DE PSIQUIATRIA AMERICANA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - IV; 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 1995.      
BRANDAO, M.Z.S; CONTE, F.C.S. Psicoterapia Analítico-Funcional: a relação terapêutica e a Análise Comportamental Clínica. In: KERBAUY, R.R; WIELENSKA, R.C. (Org.). Sobre Comportamento e Cognição: psicologia comportamental e cognitiva: da reflexão teórica à diversidade da aplicação. 1ª ed. Santo André, SP: ESETec Editores Associados Ltda., 1999, v.4, p. 133-147.
EPPEL, A.B. Uma visão psicobiológica da personalidade limítrofe.  Revista Psiquiátrica do Rio Grande do Sul, set./dez., 2005, v.27, nº 3. p. 262-268. Disponível em: < http://www.revistapsiqrs.org.br/administracao/arquivos/ visao_psicobiologica_personalidade_limitrofe.pdf> Acesso em: 14 nov. 2008.
KOHLENBERG, Robert J; TSAI, Mavis. Psicoterapia Analítica Funcional. Criando relações Terapêuticas Intensivas e Curativas. Santo André. Editora: ESETec: editores associados, 1991.
MATOS. E.G. Psicoterapia Analítico Funcional (FAP): Caracterização e Estudo de Caso. Sobre Comportamento e Cognição: Expondo a Variabilidade- Org. Hélio José Guilharde. 1ª Ed. Santo André, SP: ESETec Editores Associados, 2001. V.8

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. 1ª ed. Porto Alegre: Artmed, 1993.
SOUSA, A.C.Q; VANDENBERGHE. A emergência do transtorno de personalidade borderline: uma visão comportamental. Disponível em: Acesso em: 10 nov. 2008.
SOUSA, A.C. A. Transtorno de personalidade borderline sob uma perspectiva analítico-funcional. Revista brasileira de terapia comportamental cognitiva; v. 5 nº. 2 p.121-137, jul.-dez, 2003. Disponível em: http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?Isis Script=iah/iah.xis&src=google&base=LILACS&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=444387&inde xSearch=ID> Acesso em 10 nov. 2008.

______________. O impacto sobre a pessoa do terapeuta: do atendimento ao cliente borderline. Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado da Universidade Católica de Goiás, 2004. Disponível em: < http://tede.biblioteca.ucg.br/tde_busca/arquivo.php?cod Arquivo =36> Acessado em: 10 nov. 2008.

SKINNER, B.F. Sobre o behaviorismo. 9ª Edição. São Paulo: Cultrix, 1974.

____________. Ciência e Comportamento Humano. 11ª Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


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