Entrevista com Manoel Rodrigues Neto, Psicologo com Doutorado em Psicologia Aplicada ao Esporte

Manoel Rodrigues Neto

Possui graduação em Psicologia pela Universidade de Brasília (2001), graduação em Bacharel em Psicologia pela Universidade de Brasília (2000), mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (2003) e doutorado em Psicologia Aplicada ao Esporte - The Ohio State University, EUA (2008). Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia do Esporte e Psicologia do Consumidor, atuando principalmente sob a abordagem da análise do comportamento investigando temas presentes nos contextos da psicologia clínica, nos esportes e atividades físicas.

Introdução retirada e adaptada do currículo lattes para o blog.

1. RP - Quais as possibilidades de atuação do psicólogo do esporte no Brasil?

Manoel - As possibilidades são muitas, pois, diferente do que muitos pensam, a psicologia do esporte não é restrita a esportes de alto rendimento. Na verdade, a psicologia do esporte visa o estudo do comportamento humano em um contexto de atividade física e esporte. Daí podemos incluir educação física escolar, desenvolvimento motor e cognitivo de crianças e adolescentes, iniciação esportiva, atividades físicas para populações específicas (anoréxicos, obesos, idosos, deficientes físicos e intelectuais, etc.), reabilitação de atletas lesionados, reabilitação de indivíduos acidentados que utilizam o esporte ou atividade física para recuperação, desenvolvimento geral de futuros atletas de alto rendimento, esporte (individual e coletivo) de alto rendimento, lidando com a aposentadoria, somente para citar alguns.

No entanto, no Brasil ainda há um preconceito quanto ao trabalho do psicólogo, e na área esportiva isto fica bem evidente. Muitos profissionais da área esportiva (e.g. professores, treinadores, médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos, fisiologistas) ainda não compreendem como a psicologia pode auxiliar o desenvolvimento e aperfeiçoamento de indivíduos (atletas ou não) envolvidos com atividades físicas. Falta ainda uma maior divulgação do trabalho do psicólogo do esporte dentro das faculdades de educação física, medicina, fisioterapia, pedagogia e, principalmente, psicologia. No Brasil ainda são poucos os cursos de psicologia que oferecem disciplinas e estágios em psicologia do esporte.

Se tirarmos como exemplos as principais potências mundiais no esporte (e.g. Estados Unidos, Alemanha, França e Cuba), veremos que o trabalho do psicólogo é muito valorizado há algum tempo. Por isso, eu ainda tenho esperanças de que a psicologia do esporte venha a crescer muito no nosso país nos próximos anos com o advento da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos de Verão em 2016, ambos no Brasil, além de diversos outros campeonatos mundiais de outras modalidades que estão programados para ocorrerem por aqui nos próximos anos.

2. RP - Como é a intervenção do Analista do Comportamento em Psicologia do Esporte?

Manoel - A intervenção do analista do comportamento no esporte não é diferente de qualquer outro tipo de intervenção deste profissional em outras áreas de atuação (e.g. hospital, organizações, consumidor, escola). Ao trabalhar com o esporte, o analista do comportamento pode exercer duas funções diferentes: a de clínico e a de psicólogo do esporte. Recomenda-se que o mesmo profissional não exerça ambas as funções com o mesmo grupo de atletas. Resumidamente, como psicólogo do esporte, inicialmente, cabe ao profissional compreender os contextos históricos, social, familiar, afetivo e, principalmente, profissional dos atletas (ou praticantes de atividades físicas) visando a melhor adaptação aos ambientes esportivos vivenciados em sessões de treinamento e competições, assim como estabelecer metas individuais e coletivas junto aos atletas. A partir de tais cuidadosas análises, o analista do comportamento deve realizar análises funcionais dos comportamentos alvos, assim como de comportamento s secundários, de modo a avaliar as contingências (reforçadoras ou punitivas) que mantém ou impedem a aquisição de determinados comportamentos. A partir daí, elabora-se intervenções específicas, preferencialmente junto ao treinador, visando facilitar a aquisição de novos repertórios comportamentais ou a extinção de repertórios inadequados aos desempenhos das funções do cliente como atleta ou praticante de atividades físicas. No caso de esportes de alto rendimento, geralmente, recomenda-se que o psicólogo integre a comissão técnica de uma equipe junto ao treinador e preparador físico para que possa acompanhar as sessões de treino, recuperação e competição do cliente.

3. RP - Qual o processo de formação de um Analista do Comportamento na Psicologia do Esporte?

Manoel - No Brasil, infelizmente existem raríssimos cursos de graduação, pós-graduação ou especialização que tenham profissionais habilitados em análise do comportamento aplicada ao esporte. Legalmente, basta o profissional ser formado em psicologia e filiado junto ao Conselho de Psicologia. No entanto, recomenda-se veementemente uma boa formação em análise do comportamento, com cursos de especialização em análise do comportamento e esporte. O profissional deve, necessariamente, gostar de esportes e atividades físicas (mas não necessariamente praticá-las) entender as regras, a cultura esportiva, os contextos sócio-históricos de cada esporte trabalhado, etc. Seria muito interessante também possuir conhecimentos sobre anatomia humana, fisiologia do esporte, cultura e esporte, reabilitação esportiva, iniciação esportiva, etc.

4. RP - Quanta em média ganha um psicólogo do esporte no Brasil?

Manoel - Varia muito. Depende do trabalho, local, experiência do profissional, e do público alvo.

5. RP - Dentro da psicologia do esporte é possível a pratica Clínica?

Manoel - Sim, mas não é recomendado, pois a prática clínica vai, muito provavelmente, interferir na atuação do psicólogo no âmbito esportivo do cliente.

6. ‎RP - "Hoje ainda, no futebol brasileiro, o psicólogo do esporte é olhado com maus olhos por alguns técnicos e jogadores, como o senhor encara este fato? O que o profissional psicólogo poderá fazer para ganhar este espaço no futebol?
Manoel - Realmente, no Brasil, as possibilidades de trabalho e aceitação do psicólogo são menores no futebol em comparação a outros esportes coletivos (e.g. vôlei, handebol, basquete) e individuais (e.g. atletismo, ginástica, judô). Primeiramente, percebe-se a falta educação (conhecimento) para os profissionais envolvidos com o futebol. Estudos, assim como observações informais têm mostrado o quanto ignorantes estes profissionais são a respeito do papel do psicólogo. Muitos acham que o psicólogo é somente para quem tem problemas mentais (i.e. loucos), enquanto outros temem que o psicólogo possa estar tentando desempenhar a função de treinador ou preparador físico. Enfim, falta uma maior divulgação do trabalho do psicólogo na área esportiva e de atividades físicas, principalmente nas faculdades de psicologia, educação física, nutrição, fisioterapia e medicina, assim como em escolas do ensino médio (futuros profissionais) e clubes esportivos (profissionais do presente).

7. RP - Quais principais competências emocionais a seres analisadas funcionalmente em atletas de alto rendimento?
Manoel - Depende muito do enfoque dado pelo psicólogo junto às necessidades do atleta perante os desempenhos nas sessões de treino e conseqüentes generalizações de tais desempenhos em competições, além de fatores individuais (e.g. família, relacionamento afetivo, fator financeiro).

8. RP - Tem algum livro que você possa indicar?

Manoel - Tenho vários, mas depende do tema a ser abordado, a abordagem teórica (análise do comportamento) e da capacidade de leitura em língua estrangeira (i.e. inglês, espanhol ou francês).

Agradeço pela atenção do Dr. Manoel Rodrigues Neto em ceder o seu tempo para responder as dúvidas dos leitores.
OBS: (As questões foram feitas pelos leitores do Reforçado Positivamente)
Postado por Ítalo Sobrinho

Um comentário:

  1. Só faltou dizer quais são os livros indicados.

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